sábado, 4 de agosto de 2007

Destino: Barcelona

Bitter-sweet emotions de um regresso a uma casa vazia, que guarda tantas boas recordações mas que sinto como fria. A mesma luz da última vez que andei neste comboio, um caminho que percorri tantas vezes, sozinha, acompanhada, agora vejo-o tão diferente, como se já não fosse o mesmo, aquele que conto ter feito pelo menos 14 vezes, levando ou apanhando visitas tão especiais.

Depois de largar as malas em casa do Javi, o 1º destino é Parc Guell, mas um Parc Guell que eu nunca tinha conhecido, por caminhos no meio do mato, longe dos turistas. Daí voltamos para casa, onde a Ana e o Fábio já nos esperavam. Já não têm conta as vezes que estive com o Javier, a Ana ou o Fábio em Barcelona, mas esta não se assemelhou com nenhuma. Eles são os resistentes, os que ficaram a guardar a casa, a esperar-nos de braços abertos. Não é Erasmus, agora sou uma visita.

O dia passado juntas, só as duas, em PortAventura ajudou-nos a esquecer onde estávamos, a esquecer tudo o que já aconteceu nesta cidade, a esquecer que estamos longe de todas as pessoas que a marcaram, que a fizeram. A sintonia entre as duas sente-se sempre: nos receios de vir a Barcelona, nos nós no estômago, nas recordações, nos momentos de cansaço, de "me aburro...", de "puta da loucura", de momentos kodak, de gargalhadas, e, against all odds, tivemos um super dia, passado em montanhas russas, em loopings, em Dragon Khans, em filas ao sol para descer 100m em 3s, em que a minha única reacção foi um tímido "foda-se" antes da descida.
De volta a Barcelona, o mesmo aperto, a mesma busca do sentido de estar de volta aqui. Mas nada que um jogo do "Eu nunca" com o Javier e a Teresa não resolva. Á porta de casa, um sofá abandonado que levamos para perto da paragem e no qual nos sentamos como VIP's á espera do autocarro que, claro, perdemos porque estávamos entretidos a sacar fotos. Apanhamos um taxi, juntamente com um alemão que também esperava o NitBus e que teve a viagem de taxi da vida dele! Li pânico nos seus olhos enquanto perguntava ao taxista quanto tempo faltava até à Plaça Catalunya. Encontramo-nos com o Fábio e a Ana á porta do Hard Rock e estamos prontos para sair, como saimos sempre em Barcelona: caminhar pelas Ramblas sem destino. "Pasa nada!"
No dia seguinte almoçamos com a Ana e o Javier, seguimos para as Ramblas já sem a Ana e daí para casa. Dança-se como loucas, canta-se, salta-se, joga-se futebol, tiram-se fotografias, fazem-se os filmes mais crazy, somos crianças. Sem preocupações. Saímos. Nas Ramblas, já com o Fábio, encontramos uma cadeira de rodas partida para a qual eu e o Javier prontamente subimos, cada um sentado num braço, até sermos perseguidos pela polícia. Despedimo-nos do Fábio, apanhamos o NitBus para casa...no sentido errado. Meia-hora depois apercebemo-nos disso, saímos do autocarro prontos para andar até casa. Na rua encontramos um carrinho de bebé estragado. Eu e a Teresa, empurradas á vez pelo Javi, fomos descendo uma rua enorme e inclinada, largando o carrinho ainda em pior estado. É incrível o que se encontra pelas ruas de Barcelona...até folhas de cortiça, que o Javier procurava há duas semanas em cada loja, ali estavam, deixadas nos chão, á nossa espera.



Barcelona continua a ser uma caixinha de surpresas, continua a surpreender-me. Reapaixonei-me por esta cidade que sempre me faz conhecer um bocadinho mais de mim, onde sempre faço coisas novas, onde exploro os meus limites. E que não seria nada sem as pessoas que a fazem de cada vez, que são quem cria os meus momentos..
Até breve, Barcelona.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Destino: Itália

Quando nao há palavras para descrever um sentimento, quando uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras, ou frases, ou livros. Só temos aquelas pequenas expressoes tao espontâneas que marcam os momentos, que sao repetidas uma e outra vez e perdem o sentido quando ditas noutro contexto ou pela boca de outra pessoa. Seja um "quaaaaaanto manca?", um "Alfreeeeedo", um "per faviore".. Isso e as quase 1000 fotografias!!
Mais do que um país, mais do que todas as cidades que visitámos - Rimini, Ferrara, Veneza, Verona, Bréscia, Milao, Sirmione - foram sobretudo momentos, olhares, confidências trocadas, gargalhadas, músicas, filmes, noites, dias vividos intensamente. Mesmo quando o cansaÇo era muito, estávamos sempre de sorriso na cara, de gargalhada pronta.
Nao fomos turistas, nao eramos portuguesas, nem italianas, eramos cidadas do mundo, com vontade de ver tudo, de conhecer mais. Conhecemos imensas pessoas, fizemos imensos amigos - "Alfreeeeeeedo!!!" -, aprofundámos amizades.


Faltam-me as palavras:




















YEEEEAAAAH!

segunda-feira, 23 de julho de 2007

21 de Julho de 2007









Um McDonald's de despedida no aeroporto, felizes da vida!

15h:
De volta aos comboios de Itàlia, os melhores para dormir. Finalmente estamos aqui, depois de tantos meses a sonhar!! Os exames que ambas tivemos ontem impediram-nos de pensar demasiado na viagem, mas foi sò nos vermos de malas às costas para um sorriso enorme nos preencher. Compram-se duas garrafas de Amendoa Amarga no aeroporto para oferta e reafirma-se o ideal da viagem: a aventura, a loucura, a espontaneidade.
A boa disposiçao e a alegria sao notòrias a cada momento: a apreciar os "chicos" no aeroporto, inclusivé os sòcias, a dar deboche nas freiras, a ter conversas para maiores de 18 no aviao que levam ao maior ataque de riso, a sacar fotos parvas, a cantar Quim Barreiros.
A nossa espera do lado de cà estava a Ste. Que bom voltar a ve-la! Levou-nos até Brescia, onde nos ofereceu o quarto do irmao para dormirmos. A vontade de fiesta era muita, de mandar as garrafas abaixo, mas a realidade de termos entrado de férias hà tao pouco tempo levou-nos a melhor, e, depois de uma sessao de fotos pijama-party, dormimos um super sono.
E agora vamos a caminho de Ferrara, para encontrar a Ale.

17:50h
Voltei a ser gente rude do comboio. Jà tinha saudades desta sensaçao de liberdade total, de ter uma mochila às costas com tudo o que preciso para ser feliz: musica, um bom livro, chanatos para andar e conhecer muito, bikinis para a praia, boa companhia, maquina fotografica para mometos kodak e, claro, um caderno!

sexta-feira, 20 de julho de 2007


Poema que me foi enviado pela Ale, companheira de Erasmus, numa homenagem a todos os que fizeram parte desta experiência. Transcrevo em castelhano por ter sido a língua em que partilhei tantos momentos, tantas experiências, tantos pensamentos, tantos sentimentos, ou simplesmente conversas banais, triviais, indispensáveis.
Para todos os que já fizeram Erasmus, para os que estão a fazer, para os que ainda vão fazer. E para todos os outros também.


¿QUIÉN MUERE?

Muere lentamente quien se transforma en esclavo del hábito,
repitiendo todos los días los mismos trayectos,
quien no cambia de marca, no arriesga vestir un color nuevo
y no le habla a quien no conoce.

Muere lentamente quien hace de la televisión su gurú.
Muere lentamente quien evita una pasión,
quien prefiere el negro sobre blanco
y los puntos sobre las "íes" a un remolino de emociones,
justamente las que rescatan el brillo de los ojos,
sonrisas de los bostezos,
corazones a los tropiezos y sentimientos.

Muere lentamente quien no voltea la mesa cuando está infeliz en el trabajo,
quien no arriesga lo cierto por lo incierto para ir detrás de un sueño,
quien no se permite por lo menos una vez en la vida,
huir de los consejos sensatos.

Muere lentamente quien no viaja,
quien no lee, quien no oye música,
quien no encuentra gracia en si mismo.
Muere lentamente quien destruye su amor propio,
quien no se deja ayudar.
Muere lentamente, quien pasa los días quejándose de su
mala suerte o de la lluvia incesante.

Muere lentamente, quien abandona un proyecto antes de iniciarlo,
no pregunta de un asunto que desconoce
o no respondiendo cuando le indagan sobre algo que sabe.

Evitemos la muerte en suaves cuotas,
recordando siempre que estar vivo exige un esfuerzo
mucho mayor que el simple hecho de respirar.

Solamente la ardiente paciencia hará que conquistemos una espléndida felicidad.


(Pablo Neruda)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ericeira

Fomos pela primeira vez há mais de 8 anos, já nem sei precisar bem quando. Éramos quatro. Fomos à praia, andámos de bicicleta, eu e a Carolina corremos na praia para nos aquecermos, enquanto o João e o Chico (que nestes dias tinha que ser Francisco) estavam dentro de água a fazer body-board, fizemos totós ao João, rimos muito, conversámos muito, fizemos as parvoeiras de miúdos.
Passado tanto tempo, voltámos. Desta vez, já mais acompanhados pelos mesmos amigos de antes. Desta vez, já fomos sozinhos, sem precisar da supervisão de pais (se bem que...), já levámos os nossos carros, pagámos as nossas despesas. Desta vez, já fizemos nós o jantar sem o perigo de crianças a mexer no lume. Já fizemos coisas de adultos, como jogar poker a dinheiro ou beber vinho ou falar da faculdade ou fazer piadas de cariz sexual. Mas o ambiente entre amigos continua o mesmo: as gargalhadas de sempre, a confiança de sempre, as brincadeiras de sempre, as boas recordações de tempos idos, as parvoeiras de miúdos que escolhemos continuar a ser.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Tardes de estudo, II

E se for um faz de conta? Uma daquelas histórias escritas por um compositor que dão origem a uma canção com que tantas pessoas se identificam mas que o autor nunca viveu? Ou a fantasia daquele encontro que imaginamos vezes sem conta, planeamos ao pormenor, e quando acontece é totalmente espontâneo? Ou aquela sensação de déja-vu, já vi isto noutra vida, como se o destino nos quisesse dizer algo mas que não passa de um fenómeno físico? E se for só isso?

O cenário não é importante. Ou talvez seja, de certeza que é, mas não tanto quanto se poderia supor. Foi só mais uma desculpa.
Acordou diferente, como se a sua vida tivesse mudado, como se todo o mundo tivesse mudado, só por aquele sonho que lhe dizia
- Conheceste alguém especial, ontem á noite,
alguém em quem quase não tinha reparado, com quem nem teria falado se não estivesse frio.
Não associou. Seguiu a sua vida, ignorando o que lhe era dito. Passaram-se dias, meses, anos, naquela semana. Quando se voltaram a ver nem se apercebeu que foi com ele que sonhara, pouco se lembrava daquela cara, daquela voz. Com o soltar da noite deixou-se conquistar por aquele sorriso lindo e sincero, por aquela mão grande e forte estendida que a salvava de uma vida de enganos, que, lentamente, a puxava para a superfície.
Despediram-se como quem se conhece há anos.

Ele olhou para ela com aqueles olhos que a fazem viajar, com aquele olhar que lhe entra na alma e derruba qualquer defesa, qualquer barreira, que a faria rir á gargalhada ou chorar profundamente se se permitisse, se por uma vez se deixasse ir. Sente que ele a conhece como nunca ninguém a conheceu, que a vê como nunca ninguém a viu.
Fez uma trança no cabelo, como se quisesse pentear para fora de si aqueles pensamentos, mas um
- Linda,
completamente espontâneo, completamente imprevisível, deixou que lhe escapasse pelos olhos tudo o que não queria que ele lesse, não percebendo que ele já tinha lido, ele já sabia muito antes de ela saber.
Despediram-se como quem anseia pelo reencontro.

Decidiu ignorar, afastar-se, ficar longe dele, não se aproximar (eu sei, estou a repetir-me). Mas inconscientemente, despropositadamente, inocentemente, incontrolavelmente, já caminhavam lado a lado, afastados de todos. Ele tocava-lhe só com o respirar e nunca ninguém a tocara assim. Olhavam para o mundo de sorrisos abertos como se tudo o que interessasse naquele momento não fosse encontrado apenas um no outro. Tentavam disfarçar, mais ela que ele. Mexia no cabelo, tentava ocupar as mãos só para, por segundos, se concentrar em mais qualquer coisa que não nele, que não naquele momento. Um momento pelo qual ás vezes se espera uma vida, ali estava, maior do que ela. Não ouvia nada a não ser o coração bater e a respiração dele ali tão próxima. Por vezes tocavam-se, num sem-querer propositado, os braços roçavam, o cabelo dela batia-lhe no ombro. De costas para ele podia sentir, mais forte do que qualquer toque, o olhar dele a percorrer-lhe o corpo, as mãos a contorná-lo afastadas um palmo. Finalmente, um dedo desliza pelo braço dela, ela finge não sentir mas o arrepio que a percorre denuncia-a.
Despediram-se como quem não se quer separar.

Ele procurou os olhos dela quando a ouviu chegar. Ela olha-o como quem já tem toda a certeza num infinito de dúvidas. As mãos tocam-se quando escusado, os corpos aproximam-se mais do que o essencial, os olhares tímidos que trocam falam com toda a frontalidade, já sem o pudor que os lábios insistem em manter. Num repente que demora eternidades o mundo são eles. Não há tempo, nem espaço, nem nada. Escondem-se na liberdade que sentem, procuram-se no que encontraram, encontram-se no que procuravam mesmo sem o procurar. Ele leva-a a sítios que ela ignorava existirem, alguns dentro dela. Fá-la conhecer-se, encontrar-se, assustar-se com esta falta de controlo que nunca tinha sentido antes. Coisas pequenas ganham um significado imenso: o toque dum pé debaixo da mesa, um dar de mãos atrás das costas, escondido, um abraço inesperado, um beijo inesquecível, um convite, uma noite.
Despediram-se.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Deocriste

Nome estranho e desconhecido a todos que não me conhecem muito, muito bem. Bem o suficiente para saber que é a aldeia onde a minha avó nasceu, perto de Viana do Castelo, tendo uma fábrica de papel á entrada que deita sempre um cheiro pestilento que aprendi a gostar por associar a este sítio especial.
Já dormi em todos os quartos: no que sempre foi da minha mãe, tinha antes um papel de parede florido para o qual nunca me fartava de olhar. No que, para todos os efeitos, é do meu tio Tó, mas também da minha avó, onde durmo sempre com a minha irmã e tem guardada toda a minha roupa de bebé ainda recuperável. No que não era bem de ninguém, mas era um bocadinho da minha prima Maria e agora será sempre do tio Juca, onde me lembro de dormir com as minhas duas primas no tempo em cabíamos as três na mesma cama. No que sempre foi da minha tia Guida mas já não é, onde dormi com a minha prima mais nova numa noite em que estava sem os pais, como eu precisava da companhia de alguém para dormir naquela casa distante e familiar ao mesmo tempo quando era pequena. Na sala, que sempre teve sofás-cama, quando a casa ficava cheia de família. Houve até uma tentativa das primas de passar uma noite numa tenda montada no jardim que agora é piscina e onde havia um salgueiro-chorão que me fazia imaginar um labirinto com mil e um cenários, mas a companhia de um quinto habitante (uma centopeia em cima das nossas cabeças) fez-nos gritar e rir ao mesmo tempo enquanto fugíamos da tenda, esquecendo para sempre essa ideia.
Os natais sempre foram especiais. Principalmente na outra casa, aquela mais acima, mais velha, mais assustadora, mais cheia de história(s), com quadros de fotos amareladas de pessoas sisudas que dizem que foram família. A casa onde o chão range a cada passo que se dá, e que o pai-natal nunca esquecia, pondo as prendas todas num cesto preso áquela chaminé enorme, o cesto que subia vazio enquanto os adultos apagavam as luzes e voltava cheio quando as luzes eram acendidas. O porquê de apagarem as luzes só percebi muito mais tarde.
A casa que é uma quinta, tinha vacas, porcos, coelhos, galinhas e dois tanques onde tomei muitos banhos de verão. A casa que tem um terraço com vasos onde crescem morangos óptimos, e onde, numa noite de verão há muito tempo, a família toda dançou a Lambada. Ver a nossa avó e tios-avós dançar a Lambada é uma imagem que nunca se esquece. Daquelas recordações que vamos buscar quando queremos rir á gargalhada.
É uma aldeia que está sempre em festa, ou que nós temos o azar de apanhar sempre no auge. Sim, o azar. Acordar ás 8:30h com foguetes mandados mesmo ao lado de casa e com música portuguesa, popular e de folclore aos berros com altifalante naquele pinheiro gigante que fica mesmo nas traseiras. Durante dias ouvir o Marco Paulo falar da Anita e da Joana, até finalmente admitir que tem dois amores, o Vitor Espadinha vivendo a recordar, as vozes esganiçadas das músicas do Vira (custa arranjar alguém que cante duas notas?), a rainha da noite dos D'Arrasar (ou eram os Excesso?), o medley com algumas das canções da minha infância - tia Anita do Loulé (será a mesma do Marco Paulo? A que não tem namorado e ninguém sabe porquê?), o mar que enrola na areia -, os Da Vinci e a sua música Conquistador, que me fez pular, algumas Mónicas Sintra, alguns Pacos Bandeira, até músicas que falam da mocidade portuguesa, muitos clássicos da música portuguesa.
E voltar ao conforto de Lisboa com todo um repertório de canções para cantarolar.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Tardes de estudo I

A minha vida tem banda sonora. De auscultadores postos imagino-me em mil e um sítios: numa cena romântica dentro de um autocarro cheio de estranhos, num filme de acção enquanto atravesso a rua, num momento de reflexão quando arrumo o quarto, numa viagem no caminho de metro, em Barcelona pelas ruas de Lisboa, no meio de uma pista de dança sentada nas twin towers a estudar, no passado ou no futuro no presente.

A minha capacidade de identificação com qualquer música é inimaginável. Consigo sempre encontrar aquela frase, aquela palavra, aquele acorde, aquele som. "Quem sabe ainda sou uma garotinha" a ouvir La Valse d'Amelie, enquanto os Da Weasel me perguntam se ainda me lembro, "sabes que sim". Not An Addict em Dialectos Da Ternura que me deixam Head Over Feet e com um Hole In My Soul enquanto prometo que "I don't care, no, I wouldn't dare to fix the twist in you". Uma Grace Kelly que "she don't think straight, she got such a dirty mind and it never ever stops" numa "situation number one" em que "só a lua sabe quem eu sou". "I'm as happy as can be" como uma menina á janela "fitting you with weapons in the form of words" em Violent Pornography, porque "beauty lies inside the eye of another youthful dream". "Say 'Goodnight' and go" e "vem rastejar que te faz bem" pois "em mim tudo é maior, hoje o desejo, amanhã nasce o ódio" e "there were times in my life when I was going insane" pensando que The World Is Mine. E eu estou só Sitting, Waiting, Wishing por um Amor d'Água Fresca que me faça perguntar Where is My Mind. E eu só quero uma Life Less Frightening porque "a tacanhez, essa há-de ser eterna" e "frames can't catch you when you're moving like that". Just A Thought.

Mas não é por isso que me passam despercebidas as cenas da vida real. Os casais de velhinhos de mãos dadas, as crianças a rir, ou aquela frase tão pequena mas que diz tanto de um amigo para o outro e que foi a causa de todo este texto: "Cabeça para cima" enquanto lhe levantava o queixo. Pode ter sido só uma frase como outra qualquer, pode não ter o significado oculto que lhe senti, mas foi a frase perfeita para se ouvir entre duas músicas.

sábado, 16 de junho de 2007

15-Junho-2007: Um dia inesquecível.

Começou no dia anterior com um café no Residence depois de um "jantar a dois" na Pizza-Hut. A mim e ao Zé juntou-se a Carolina, e os dois prometeram cantar os parabéns quando as luzes apagassem, á meia-noite. Mas as luzes apagaram e eles não cantaram, só muito timidamente, quase não se ouvia.... Ainda assim, estava dado o mote para um grande dia! Começam a chegar as mensagens, os telefonemas.

Acordo para fazer bolo de bolacha. Á hora do almoço chega a Teresa, que já é da casa, e, com todo o á-vontade que a caracteriza, põe a mesa, abre o frigorífico, serve-nos o almoço, enquanto acabo a última camada do bolo. E nem foi preciso pedir.
O objectivo era irmos fazer coisas que eu nunca tivesse feito antes, mas as ideias não saiam. Ir a uma sex-shop? Já fui. Fumar uma ganza? Já fumei. Apadrinhar um animal no jardim zoológico? Por fazer! Estar em dois sítios ao mesmo tempo? Por fazer! Está feito o plano.


Saimos de casa, eu, a Teresa e a minha irmã e dirigimo-nos ao Jardim Zoológico, para eu apadrinhar um Koala de nome Moonan (a que já chamei Malu, Kalooma, Sebastião).













Pequena paragem na Amazónia.






No caminho de volta ao carro passamos por um carro que "só" estava com uma porta escancarada. As imaginações começam a trabalhar, a ver indícios suspeitos em todo o lado: o carro q está novo, os riscos no porta-luvas, o banco do conductor todo para a frente, o banco do acompanhante todo para trás, o homem com ar de nerd ali a passear-se. Chamo o 112 (uma estreia para mim também) e "só" esperamos 25 min pela polícia, que chega precisamente quando cantamos "A bófia não manda aqui, a bófia não manda aqui!!!!". Vamos para o carro, satisfeitas com as duas boas acções praticadas, confiantes no nosso karma, e seguimos para as Portas de Benfica que separam a Amadora e Lisboa. Enquanto a minha irmã tirava a foto, eu e a Teresa ficávamos no meio da passadeira que fica entre as portas, a parar o trânsito, estando em Lisboa e na Amadora ao mesmo tempo.
Vamos a correr para o supermercado, fazemos as últimas compras para a festa e seguimos para casa. As tarefas são dividias: eu faço a tarte, o arroz, os bifes, a Teresa faz a sangria, a massa, a mana faz a salada de fruta e a salada. Os doces e o patê já eu tinha feito. A Carolina, o Zé, a Sara e a Flores, que entretanto chegaram, ficaram encarregues de encher os balões e fazer a decoração, a Mary de fazer a selecção da música a tocar. Nem tenho tempo de mudar de roupa e arranjar-me, limito-me a mudar de top e a pôr a coroa que a minha irmã tinha comprado, "És a rainha da noiteeeee".

As visitas começam a chegar, poucas mas boas. A comida foi elogiada por todos, a sangria estava óptima, pessoas que não se viam há imenso tempo reencontraram-se, toda a gente se divertiu e eu ADOREI a noite, que acabou no Lux, embora eu não me lembre muito bem..... (consequências da sangria e dos shots de espumante que me obrigaram a beber).












Obrigada ISPIANAS!!! Adorei ter-vos comigo nesta noite! E ADOREI as prendinhas cheirosas!






















Obrigada á melhor mana do mundo, pela ajuda, pela paciência, por seres tão fofinha e apetitosa! ADORO-TE! E és uma vaca porque acabaste de me rebentar um balão nas costas para me assustar!!




E obrigada a todos os que vieram, adorei o meu dia, a minha festa e ADORO-VOS a todos!



Desejo-vos um GRANDE ano!

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Santos Populares










Ás vezes a beleza não é limpa, arrumada, chique. Ás vezes a beleza (para mim, quase sempre) é confusa, imperfeita, imprevisível, louca. Assim são os Santos, a noite de 12 para 13 de Junho em que Lisboa sai á rua na sua melhor forma e baila ao som da sua música pelos seus bairros mais típicos. Aquela noite em que se passeia por zonas da cidade que parecem tão inatingiveis em todas as outras noites, que parecem sempre tão despidas da vida de Lisboa moderna e se enchem de alegria e vida e gente. É quando se dança sem vergonha ao som de Quim Barreiros enquanto se come uma sardinha com as mãos. É a noite que todos os lisboetas esperam durante todo o ano, porque é uma noite sem igual, em que nos permitimos ser povinho, em que temos orgulho de ser povinho.
Encontramo-nos em São Sebastião, preparados para andar o resto da noite. Descer a Av. da Liberdade enquanto desfilam as marchas, embora nunca as tenha visto, e começar a subir a colina, para sentar nas escadinhas duma Igreja a comer caldo verde, sardinhas e chouriço. Tirar a foto dos Santos que, por o meu blog não ter bolinha vermelha ao canto, não posso pôr aqui, e começar a sentir a noite popular. Subir para a Graça, sentar junto ao miradouro e partilhar novidades, que levam sempre (não sei porquê!!!!!) a que toda a gente se parta a rir!
Já temos a música da noite: "A gente vai jantar depois da uma, depois da uma, depois da uma", que nos parece inocente demais para o artista, até nos explicarem que o "da" leva acento...O belo do trocadilho, a lingua portuguesa e os seus esconderijos.
Começar uma moda (faz de conta): "CAROLINA, VAI TER Á SÉ!!!", e depois outra "work, work, work, war, war, war, war, woooooork, waaaaaaar". E ter aquela chatice da noite, aquele vestigio que nos dá razão, que fortalece as nossas certezas. A má decisão de passar para a colina do Bairro Alto que levou a Flores a levar porrada psicológica e a Diana a levar um soco no olho. Ir para o Adamastor só para voltar para trás, encontro no Camões com festa brasileira á mistura e um bocadinho de cenas hardcore. E mesmo assim, foi a melhor noite de Santos de sempre.
Para o ano há mais!

domingo, 10 de junho de 2007

Tróia










Sim, eram 4:13 da manhã quando tirámos esta foto.




Não há nada como ir ao último dia de aulas do ano sabendo que daí seguimos para quase uma semana de Praia, Piscina, Sol e.....estudo. Não podia ter havido melhor preparação para o início das frequências e exames!!!!

sábado, 19 de maio de 2007

"Oh, the simple pleasures in life.."

18-Maio-2007, um DAQUELES dias


Praia

Cliché. "Ôpaaaah...a praia é tsãum boua, é que é mesmo bom ir a praia!! Eu adoro, adoro, adoro!Peixinho dos olhinhos esbugalhados.... "(private joke!!)
Recomeçar.


Praia

Aulas, trabalhos, estudo, testes... Pequena troca de mensagens em crise e uma ida á praia para o dia seguinte. A companhia de sempre arranja o seu espacinho (complicado, numa praia atulhada) entre caras conhecidas de outros tempos e caras novas dos tempos futuros.
Aquele mergulho que limpa a alma e tira o peso do dia-a-dia, particularmente daquela conversa sinistra que arruinou os beneficios da noite passada. Horas ao sol a absorver toda a energia possível e sem uma única má vibração no corpo. Enterrar os pés na areia, deixar os pensamentos viajar para longe.


Amigos

A troca das novidades e aquelas gargalhadas!!!! As de sempre, childhood bestfriends.
Apercebermo-nos de que tanto mudou, vislumbrar (literalmente) diferentes fases das nossas vidas e ver que há coisas que nunca mudarão: nós. Olhamo-nos nos olhos e vemos o familiar.


Comida

A do Verão. Ameijoas á bulhão pato, pão torrado para afundar no molho, tremoços e imperiais fresquinhas ao fim da tarde.


Momentos

O beijinho no carro de trás ao som de "não sou o único a olhar o céu". Eu e a condutora irmos apreciar os estragos (nulos) enquanto a dona do próprio carro nem se mexe. E aquelas gargalhadas.....

"Three little birds" e a mão fora do carro a dançar com o vento. A vista de Lisboa enquanto atravessamos a ponte ao som dum pôr-do-sol.




Só me falta o George Clooney, numa praia deserta, com uma caixa de Martini.






quarta-feira, 2 de maio de 2007

Déja-vus


Sinto-me a Carrie, do Sexo e a Cidade. Isto porque estou "a trabalhar" (entre outras coisas) no meu portátil, na biblioteca do ISPA, virada para a janela com vista para o rio e a pensar em relações. Muito déja-vu... Estava aqui toda inspirada, mas alguém resolveu mexer na ficha e desligar o meu computador, que é tão rápido e eficiente que levou 15 minutos a reanimar, e eu sou tão rápida e eficiente que me esqueci de tudo o que ia escrever.
Estava em animada conversa com a Vanessa, via virtual, e a chegar a algumas das minhas brilhantes teorias ("As Teorias das Júlios e das Marias", publicação está para breve). Isto porque é muito mais fácil analisar quando estamos de fora, quando não somos mais do que a ouvinte das crises, ainda que sempre espantada com as vicissitudes das ligações entre as pessoas, com os encontros, desencontros, reencontros. Interessada pela complexidade das relações que vejo acontecer ao pé de mim. Vejo as relações á distância (física), das quais há tanto para dizer que mais vale não dizer nada..até porque não sou propriamente um Ás neste departamento, ainda que tenha aprendido uma coisinha ou outra e desenvolvido uma data de teorias. Ainda assim são mais fáceis do que aquelas em que as pessoas estão lado a lado, tão perto, mas têm um mundo entre elas. Olham-se mas não se vêem, falam-se mas não se ouvem, a distância é muito maior e não hã avião para a encurtar. Vejo as segundas tentativas, as terceiras, as quartas, as já perdi o número até que simplesmente gastámos as palavras e vejo os pedidos de desculpa interesseiros que chegam sete anos depois (what goes around, comes around), mas que ainda assim ajudam um bocadinho o ego. Vejo e identifico-me com histórias que de tão diferentes se tornam iguais: outros actores, outros cenários, outros momentos, mas o mesmo sentimento de finalidade, de egoísmo, de busca pela liberdade, pelo crescimento, pelo descobrimento, pelo friozinho na barriga, pela novidade.
O que é que se passa com esta Primavera?! Com os campos em flor, as abelhas e as borboletas, os passeios românticos, os novos amores, as paixões, os olhares comilões, os sorrisos marotos... Pessoal, vamos lá a animar!! Ainda temos mais de um mês até ao Verão para aproveitar a época das alergias, do pólen voador, dos narizes atacados. Um "BOA SORTE" para todos!

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Frases Fáceis

Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga.

domingo, 8 de abril de 2007

Menina


Agora que sei que vocês vêm, de vez em quando, aqui dar uma vista de olhos, a pressão para retratar fielmente esta semana é maior.
Em quatro dias pude matar saudades de algum do melhor de Barcelona: os amigos, os passeios, as gargalhadas, os jantares, as batatas quentes, as bebedeiras, o castelhano arranhado.
Cheguei timidamente, com medo de me sentir meio intrusa, meio deslocada, mas o abraço do Javier que me levantou os pés do chão levou-me de volta a Erasmus. Troca-se um jantar japonês em Lisboa por um mexicano caseiro em Cascais feito pelo Ricardo e, com borboletas na barriga e um sorriso na cara, fica-se a par das novidades do último mês e meio (e parece muito mais...), com direito ao jogo da confiança com um trago de Jose Cuervo, e a testemunhos sobre pirilaus empinados.®
No dia seguinte, a boleia da Mariana levou-me quase como turista deslumbrada, emigrante esquecida, pelo Portugal dos pequeninos. Á má fila tornamos-lhes impossível não se apaixonarem pelo cantinho a beira-mar plantado. A ida á praia, e o passeio pelo Cabo da Roca (onde o Stefano quis ser o primeiro homem a cair no ponto mais ocidental do Continente europeu) e por Sintra conquistaram-nos facilmente. Até quiseram lá voltar no dia seguinte, antes de um curto passeio por Belém e um óptimo jantar em casa dos pais do Nuno, já parte integrante da família de Barcelona. A seguir, Coconuts, uma quase estreia para mim também, mas muito animada e cheia de iniciativa, e a noite acabou com uma viagem-aventura a levar a Ana a casa.
Último dia: de volta á Baixa, já com a companhia do artista Francisco. Parada no Adamastor. Já lá não ia há anos. Jantar no Bairro Alto, obrigatório, numa tasca portuguesa com certeza, pão e vinho sobre a mesa. E na despedida, até o Enrico chorou.
Menina, Lisboa. A minha menina, a menina dos meus olhos. Lisboa, deixou-me orgulhosa saber que te adoraram, que os encantaste, ouvi-los dizer que és das cidades mais bonitas que já viram, que és especial, que és única. Mas isso eu já sabia. Sou alfacinha-de-gema.
Menina, eu. O entusiasmo de estar com algumas das pessoas com quem alguma vez me senti melhor, mais tranquila, mais autêntica, como uma menina sem preocupações. Éramos desconhecidos, espalhados pelo mundo, com experiências diferentes, com backgrounds diferentes, e sem sabermos nada uns dos outros tornamo-nos indispensáveis. Mesmo por não sabermos nada uns dos outros não tínhamos por onde nos julgar. Só sabíamos que nos dávamos todos bem e que estávamos todos bem ali, em Barcelona.
Passei a semana com a certeza constante de que conheci as melhores pessoas com quem partilhar o meu e nosso Erasmus. Obrigada. Aos de lá e aos de cá..
Gosto muito de vocês!
Vos quiero muchisimo!

terça-feira, 3 de abril de 2007

Num Domingo (ou noutro dia qualquer....)

Um momento de proximidade.
Sinto o coração a bater acelerado e um nervoso miudinho que me apanha desprevenida e me impede de tirar os olhos do chão.
A rua está calada. A esta hora da manhã de Domingo, o pouco movimento não tem qualquer semelhança com as buzinas e alarmes dos carros, os gritos dos arrumadores, o zuuum dos carros que passam a grande velocidade, constantes por aqui.
Sinto o fresco da manhã e sinto-me preenchida, como se este sítio tão familiar se apresentasse com novas cores, novos cheiros.
A tua presença é tao confortável...
Falámos pouco e desajeitadamente. Ficou tanto por dizer.
Despedimo-nos com um abraço, tão próximo, tão sincero.
E foste embora.

sábado, 17 de março de 2007

Ao primeiro dia de praia do ano (que esteve óptimo!!!), ás bochechas coradinhas, á marca do bikini, aos mergulhos no mar, ás boas companhias, ás novas amizades, ás velhas amizades, ás gargalhadas, ao pensamento positivo, aos deslumbramentos, aos momentos, ás músicas que nos fazem saltar e dançar, ás saudades de Barcelona, ás visitas que aí vêm, ás verdades, ás ilusões, ás lembranças, ás boas lembranças, ás mudanças e ás constâncias.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Aaah, Lisboa!!

Voltei. (Já não é o primeiro que começa assim)
Posso já cá estar há quase um mês, mas só hoje é que voltei, só hoje é que me voltei a sentir lisboeta. Porque hoje é verão. O verão é um estado de espírito e hoje, para mim, é verão. É a magia de Lisboa. Os senhores meteorologistas podem dizer que estão 18º, posso estar de camisola de lã vestida, mas hoje é verão. Hoje, o céu está azul, sem a interrupção das nuvens, hoje o Cristo-Rei via-se claramente da paragem do autocarro, hoje o rio espelhado reflectia o sol (posso ter muitas queixas da minha universidade, mas localização não é uma delas!!), hoje a Praça do Comércio está cheia de pessoas sentadas e até deitadas no chão com as calças arregaçadas até ao joelho, hoje as esplanadas estão montadas e cheias de "girassóis", hoje as pessoas andam mais felizes e descascadas.
O lisboeta não gosta de vestir cinzento e lã. O lisboeta gosta de vestir laranja, verde, amarelo, azul-turquesa. O lisboeta gosta de andar de manga cava e pneu michelin de fora, a aparecer a ponta do novo piercing no umbigo feito em Nova Iorque (bora, Mary????). E, quando chegam estes dias de sol, ainda que em Março, o lisboeta aproveita.
Por isso, com licença, que eu vou beber um sumo de laranja natural e ouvir música de verão no Ipod, enquanto me bronzeio numa esplanada qualquer.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Terceiro Destino: NOVA IORQUE!!






Passavam horas a andar a pé em Nova Iorque: como se seguissem por um caminho sinuoso numa paisagem montanhosa e fascinante, o espectáculo alterava-se a cada passo: no meio do passeio, havia um rapaz ajoelhado a rezar; a dois passos dele, encostada a uma árvore, uma negra belíssima passava pelo sono; um homem de fato preto atravessava a rua a gesticular como se dirigisse uma orquestra invisível; a água caía nas bacias de um fontanário; mesmo ao lado, estavam uns operários sentados a almoçar. Escadarias metálicas trepavam pelas fachadas das casas de tijolo encarnado, casas que, de tão feias, até chegavam a parecer bonitas; mesmo ao lado, erguia-se um gigantesco arranha-céus de vidro por detrás do qual havia outro arranha-céus que culminava num palaciozinho árabe com torres, galerias e colunas douradas.



Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.




A foto não é nada representativa da cidade, mas é das melhores em grupo, e os momentos dependem sempre da companhia. Nova Iorque.. um jardim de arranha-céus. Por muitas imagens que se vejam ou muitas descrições que se oiçam, a cidade acaba sempre por nos deslumbrar. É única, com os seus prédios sem fim, com as limusines que estão sempre a passar, com os milhares de taxis, com as pessoas apressadas, com os carrinhos de hot-dogs e de Nuts4Nuts, com o ruído dos carros de bombeiros e ambulâncias que passam constantemente, com as igrejas góticas no meio do mundo de cimento... A melhor palavra para descrever Nova Iorque é "variedade". Variedade de pessoas, variedade de situações, variedade de estilos. A sua heterogeneidade é o que a torna única, a mistura entre o novo e o velho, entre o pequeno e o enorme, entre a luz e o escuro. Adorei.
As temperaturas negativas gelavam-nos a ponta do nariz enquanto calcorreávamos Manhattan de cima a baixo, percorrendo a 5th Avenue ou a Broadway, ou outra avenida gigante e linda. Subimos ao Empire State Building, fomos patinar no Central Park, comemos uma pizza em Little Italy, bebemos chocolate quente no Starbucks, comemos Wendy's, Taco Bell, cachorros quentes na rua e McDonald's, encomendámos chinês para comer em casa das caixinhas (sim, as refeições eram sempre momentos importantes), passeámos por Times Square á noite, iluminadas pelas centenas de anúncios, fizemos muitas compras, fizemos tudo o que queriamos fazer! E rimos muito.
Agora resta-me pensar no próximo destino.



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Lisbon revisited (2007)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos


Ás vezes as palavras que sentimos já foram ditas por alguém.
Voltei a casa, voltei á minha vida. Mas sinto-me em fragmentos. Não sei que partes de mim voltaram, que partes de mim ficaram, que partes de mim ficaram perdidas para sempre. Tento reencontrar-me pelas ruas de Lisboa, mas já não a sinto minha, assim como já não me sinto eu. Cada momento é passado em reconstrução, tentando unir pedaços de mim que agora tenho disponiveis, mas desconheço-me. Em cinco meses criei outra vida, que sinto mais minha que esta. Ou talvez só tenha que aprender a unir-las.